Alopecia Frontal Fibrosante: Causas, Diagnóstico e Tratamentos
Alopecia frontal fibrosante é uma alopecia cicatricial progressiva que afeta principalmente mulheres pós-menopáusicas. Entenda as causas, como diagnosticar e os tratamentos disponíveis.
Dr. Ricardo Silva
CRM-SP 123456 | RQE 78901
Alopecia Frontal Fibrosante: Causas, Diagnóstico e Tratamentos
A alopecia frontal fibrosante (AFF) é uma das formas mais desafiadoras de queda de cabelo, não porque seja a mais comum, mas porque causa danos permanentes ao folículo piloso. Trata-se de uma doença inflamatória cicatricial que destrói progressivamente a linha de implantação capilar frontotemporal, deixando a pele atrófica e sem possibilidade de rebroto nas áreas afetadas.
Descrita pela primeira vez em 1994 pelo dermatologista australiano Steven Kossard em seis mulheres pós-menopáusicas[1], a AFF era considerada rara naquela época. Três décadas depois, tornou-se a alopecia cicatricial primária mais frequente em clínicas de tricologia em diversos países, incluindo o Brasil, com prevalência em crescimento progressivo e ainda inexplicado desde os anos 1990.
O diagnóstico precoce é fundamental: a fibrose estabelecida é irreversível, e o objetivo de todo tratamento é estabilizar a doença, não recuperar o que já foi perdido.
O que é a Alopecia Frontal Fibrosante
A AFF é classificada como uma alopecia cicatricial primária linfocítica, pertencente ao espectro do líquen planopilaris (LPP). Nela, o sistema imunológico ataca o folículo piloso na região do istmo e infundíbulo, provocando inflamação progressiva seguida de fibrose perifolicular. Com a destruição do folículo, o cabelo não volta a crescer.
O processo acontece principalmente na linha de implantação frontal e nas têmporas, avançando lentamente em direção ao couro cabeludo. Além do couro cabeludo, a doença frequentemente afeta as sobrancelhas, os cílios e os pelos corporais.
Epidemiologia no Brasil
O maior estudo epidemiológico sobre AFF no Brasil avaliou 902 participantes em 11 centros de referência e identificou fatores de risco específicos para a população multiétnica brasileira[4]. Uma pesquisa transversal com 492 dermatologistas brasileiros identificou AFF em 4,9% das participantes, todas mulheres, sendo mais velhas e mais frequentemente pós-menopáusicas do que as colegas sem a doença[*].
Globalmente, estudos de coorte mostram que:
- 95% dos pacientes são do sexo feminino[9]
- 84% das mulheres afetadas estão na pós-menopausa[9]
- O atraso diagnóstico pode chegar a 24 anos após o início dos sintomas[9]
- Distúrbios tireoidianos ocorrem em 35% das mulheres com AFF[9]
Causas e Fatores de Risco
A etiopatogenia da AFF é multifatorial. Há interação entre predisposição genética, alterações hormonais e exposições ambientais.
Mecanismo imunológico
O folículo piloso em fase de crescimento normalmente se protege do sistema imunológico por um mecanismo chamado "privilégio imunológico". Na AFF, esse privilégio colapsa: células do sistema imune passam a reconhecer o folículo como alvo e desencadeiam uma resposta inflamatória mediada por linfócitos T e pela via de sinalização JAK-STAT[5]. A inflamação crônica resulta em fibrose progressiva e irreversível ao redor do folículo.
Genética
Um estudo de associação genômica ampla (GWAS) com mais de 1.000 casos identificou quatro regiões cromossômicas associadas à susceptibilidade à AFF, sendo o principal achado o alelo HLA-B*07:02 — o mesmo associado ao líquen plano cutâneo[3]. Também foi identificada uma variante no gene CYP1B1, envolvido no metabolismo de hormônios e xenobióticos. Em famílias brasileiras, dois haplótipos HLA de susceptibilidade foram descritos, com padrão de herança autossômico dominante de penetrância incompleta[10].
Fatores hormonais
A predominância em mulheres pós-menopáusicas sugere papel importante da queda de estrogênio e do aumento relativo de androgênios. Isso é apoiado pela eficácia de inibidores da 5-alfa redutase (finasterida e dutasterida) no controle da progressão da doença. No entanto, estudos em mulheres pré-menopáusicas com AFF não demonstraram anormalidades hormonais consistentes, indicando que os hormônios são apenas um dos fatores envolvidos.
Fatores ambientais
O estudo multicêntrico brasileiro identificou os seguintes fatores de risco e de proteção[4]:
| Fator | Associação | OR |
|---|---|---|
| Alisamento capilar com formaldeído | Risco | 3,18 |
| Uso de hidratante facial | Risco | 1,99 |
| Sabonete facial comum | Risco | 2,09 |
| Distúrbio tireoidiano | Risco | 1,69 |
| Rosácea | Risco | 2,08 |
| Tabagismo | Proteção | 0,33 |
Esses dados sugerem que partículas de cosméticos capilares e faciais podem atuar como gatilhos em indivíduos geneticamente predispostos.
Sintomas e Sinais
Apresentação clínica clássica
O principal sinal da AFF é a recessão progressiva da linha de implantação frontotemporal, formando uma faixa de pele pálida, atrófica e sem óstios foliculares visíveis. Na borda ativa da doença, é possível observar eritema (vermelhidão) e escamação ao redor dos folículos remanescentes.
A progressão, sem tratamento, ocorre a uma taxa média de 0,9 mm por mês (0,2 a 2 cm por ano).
Envolvimento além do couro cabeludo
- Sobrancelhas: perdidas parcial ou totalmente na maioria dos pacientes; frequentemente o primeiro sinal perceptível
- Cílios: podem ser afetados
- Pelos corporais: axilar, pubiano e das pernas
- Pápulas faciais não inflamatórias: pequenas elevações na testa e bochechas, consideradas sinal patognomônico quando presentes
Sintomas subjetivos
Prurido e ardência são variáveis e, muitas vezes, ausentes — o que contribui para o atraso no diagnóstico. A progressão lenta e silenciosa faz com que muitas pacientes só percebam a perda quando ela já é significativa.
Diagnóstico
Critérios diagnósticos
Os critérios propostos por Vañó-Galván et al. são os mais utilizados na prática clínica[2]:
Critérios maiores:
- Alopecia cicatricial na região frontotemporal (na ausência de pápulas foliculares queratósicas corporais)
- Alopecia bilateral difusa das sobrancelhas
Critérios menores:
- Tricoscopia com eritema ou escamação perifolicular
- Histopatologia com padrão AFF/LPP
- Envolvimento de outras áreas (occipital, pelos corporais, face)
- Presença de pápulas faciais não inflamatórias
O diagnóstico é estabelecido com 2 critérios maiores ou 1 critério maior + 2 menores.
Tricoscopia
A dermoscopia do couro cabeludo é uma ferramenta fundamental. Os principais achados na borda ativa incluem:
- Ausência de óstios foliculares (91% dos casos)
- Escamas perifoliculares (79%)
- Eritema perifolicular (64%)
Em 71,8% dos casos, a combinação de clínica e tricoscopia é suficiente para o diagnóstico sem necessidade de biópsia.
Biópsia
A biópsia do couro cabeludo é o exame padrão-ouro para diagnóstico definitivo. O material deve ser colhido na borda ativa da doença (onde ainda há eritema e folículos remanescentes). O padrão histológico clássico inclui[8]:
- Infiltrado linfocítico perifolicular concentrado no istmo e infundíbulo
- Fibrose perifolicular concêntrica
- Perda de glândulas sebáceas (achado precoce e consistente)
- Destruição progressiva do folículo com substituição por fibrose
Exames complementares
- Perfil hormonal: testosterona total e livre, DHEA-S (para excluir causa hormonal associada)
- Função tireoidiana: TSH e T4 livre (comorbidade em 35% das pacientes)
- Hemograma e ferritina: para afastar eflúvio telógeno concomitante (ver eflúvio telógeno)
Classificação e Estadiamento
FFASS (Frontal Fibrosing Alopecia Severity Score)
Escala simplificada de 0 a 25 pontos, utilizada em ensaios clínicos, que avalia:
- Extensão da alopecia no couro cabeludo
- Perda de sobrancelhas
- Inflamação perifolicular ativa
- Prurido e dor
Medida objetiva da progressão
A distância entre a glabela (entre as sobrancelhas) e a linha de implantação frontal é a medida mais objetiva para monitoramento ao longo do tempo, complementando as escalas de atividade.
Tratamentos Disponíveis
Não há cura para a AFF. O objetivo do tratamento é interromper ou desacelerar a progressão da fibrose. A escolha do esquema terapêutico depende da atividade inflamatória, das contraindicações individuais e da resposta prévia[8].
Inibidores da 5-alfa redutase (primeira linha)
Dutasterida 0,5 mg é o agente com maior evidência atual. Em um estudo com 224 pacientes seguidos por mediana de 24 meses, a dutasterida promoveu estabilização da linha de implantação em 62-64% dos casos em 12 meses, versus 30% sem tratamento sistêmico. Com doses maiores, a estabilização atingiu 88-91%[6].
A finasterida (2,5-5 mg/dia) é uma alternativa equivalente, especialmente em mulheres pré-menopáusicas em uso de contracepção. Um RCT comparou finasterida e hidroxicloroquina e encontrou melhora superior a 60% em ambos os grupos, sem diferença estatisticamente significativa[7].
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Antimaláricos
Hidroxicloroquina 400 mg/dia é frequentemente utilizada como primeira linha em pacientes com contraindicação a antiandrogênios. Melhora do índice de atividade ocorre em 73% dos pacientes, com significância clínica em 36%. Requer monitoramento oftalmológico anual.
Corticosteroides
- Intralesional (triancinolona 10 mg/mL): eficácia de 60% no geral, com 80% de rebroto parcial das sobrancelhas
- Tópico (classe I-II): insuficiente como monoterapia em 93% dos casos, mas útil como adjuvante
Retinoides sistêmicos
Isotretinoína ou acitretina (20 mg/dia) alcançam 73-79% de estabilização, com manutenção do benefício após descontinuação. Opção importante quando há contraindicação a antiandrogênios.
Imunossupressores (casos refratários)
| Medicamento | Taxa de estabilização/melhora |
|---|---|
| Metotrexato 15 mg/semana | 85% |
| Micofenolato de mofetil 1 g/dia | 76% |
| Doxiciclina 100-200 mg/dia | 50% |
Inibidores de JAK (terapia emergente)
A base patogênica da AFF envolve hiperativação da via JAK-STAT. Tofacitinibe e outros inibidores de JAK mostraram 80% de melhora em séries de casos refratários. As evidências ainda são preliminares, mas crescentes.
Transplante capilar
O transplante capilar pode ser considerado em casos com doença estabilizada por pelo menos 1 a 2 anos. A satisfação do paciente é de 82%, mas a sobrevivência dos enxertos é de apenas 41% em 5 anos — resultado significativamente pior do que no transplante para alopecia androgenética. A doença ativa contraindica o procedimento.
Diagnóstico diferencial
A AFF deve ser distinguida de outras causas de queda na região frontal:
- Alopecia androgenética: não cicatricial, sem eritema perifolicular, sobrancelhas preservadas; dermoscopia mostra miniaturização capilar
- Alopecia de tração: relacionada a penteados, com preservação de cabelos mais anteriores (fringe sign) e ausência de inflamação ativa
- Alopecia areata: não cicatricial, reversível; dermoscopia mostra cabelos em ponto de exclamação e pontos pretos/amarelos
Prevenção
Não há forma comprovada de prevenir a AFF em indivíduos predispostos. No entanto, com base nos fatores de risco identificados no estudo multicêntrico brasileiro[4], algumas condutas são razoáveis em pacientes com histórico familiar:
- Evitar alisamentos com formaldeído ou produtos com queratina de alta temperatura
- Optar por hidratantes faciais sem fragrâncias ou conservantes potencialmente irritantes
- Realizar monitoramento da função tireoidiana regularmente
- Consultar um dermatologista/tricologista ao menor sinal de recessão capilar progressiva
Quando Procurar um Médico
Procure um dermatologista ou tricologista se notar:
- Recuo progressivo da linha de implantação frontal ou temporal
- Perda de sobrancelhas sem causa aparente
- Pele pálida e sem poros na área de recessão
- Vermelhidão ou descamação ao redor dos cabelos da borda frontal
- Histórico familiar de AFF ou líquen plano
O diagnóstico precoce é determinante. Quanto antes o tratamento é iniciado, menor a extensão da fibrose e maior a área que pode ser preservada.
Perguntas Frequentes
A AFF tem cura? Não. A fibrose já estabelecida é irreversível. O tratamento visa estabilizar a doença e evitar a progressão da perda capilar.
Homens podem ter AFF? Sim, mas é incomum. Estudos de coorte mostram que apenas 3-5% dos casos ocorrem em homens. A apresentação e o tratamento são semelhantes.
Posso fazer transplante capilar com AFF? Apenas se a doença estiver estabilizada por pelo menos 1-2 anos, confirmada por exame clínico e tricoscopia seriada. Em doença ativa, o risco de falha do transplante é muito alto.
A AFF pode afetar outras partes do corpo? Sim. Além do couro cabeludo, podem ser afetados as sobrancelhas, cílios, pelos axilares, pubianos e das pernas. A presença de pápulas faciais não inflamatórias também é frequente.
Quanto tempo dura o tratamento? O tratamento é contínuo. A suspensão dos medicamentos está associada à retomada da progressão na maioria dos casos. A duração e o esquema devem ser definidos pelo dermatologista responsável.
Existe relação entre AFF e uso de cosméticos capilares? Estudos brasileiros identificaram associação significativa entre alisamento capilar com formaldeído e risco aumentado de AFF. O mecanismo ainda é investigado, mas sugere que a exposição a partículas de produtos cosméticos pode atuar como gatilho em indivíduos geneticamente suscetíveis[4].
Referências
Kossard S. Postmenopausal frontal fibrosing alopecia. Scarring alopecia in a pattern distribution. Arch Dermatol. 1994 Jun;130(6):770-774. PMID: 8002649
Vañó-Galván S, Molina-Ruiz AM, Serrano-Falcón C, et al. Frontal fibrosing alopecia: a multicenter review of 355 patients. J Am Acad Dermatol. 2014 Apr;70(4):670-678. doi:10.1016/j.jaad.2013.12.003
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