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SOP e Queda de Cabelo: Causas, Diagnóstico e Tratamentos

A síndrome dos ovários policísticos causa queda de cabelo por excesso de andrógenos. Entenda os mecanismos, como diagnosticar e as melhores opções de tratamento.

Dr. Ricardo Silva

CRM-SP 123456 | RQE 78901

SOP e Queda de Cabelo: Causas, Diagnóstico e Tratamentos

A síndrome dos ovários policísticos (SOP) é o distúrbio endócrino mais comum em mulheres em idade reprodutiva, afetando entre 8% e 13% dessa população no Brasil e no mundo[1]. Embora seja frequentemente associada a irregularidades menstruais e dificuldades para engravidar, uma das manifestações menos discutidas — e mais angustiantes — é a queda de cabelo.

Estudos mostram que cerca de 22% das mulheres com SOP desenvolvem alopecia androgênica[2], um tipo de perda capilar causada pela ação dos andrógenos sobre os folículos pilosos. Para muitas pacientes, a queda de cabelo antecede o diagnóstico da SOP ou é o sintoma que as leva a buscar atendimento médico.

Entender a relação entre a síndrome e a saúde capilar é fundamental para um tratamento eficaz — e para evitar anos de abordagens inadequadas.


O que é a Síndrome dos Ovários Policísticos

A SOP é caracterizada por uma combinação de disfunção ovulatória, hiperandrogenismo (excesso de hormônios masculinos) e ovários com morfologia policística ao ultrassom. Para o diagnóstico, são utilizados os critérios de Rotterdam, que exigem a presença de pelo menos dois dos três critérios seguintes[3]:

  1. Oligo-ovulação ou anovulação — ciclos irregulares ou ausentes
  2. Hiperandrogenismo clínico ou bioquímico — acne, hirsutismo, alopecia ou níveis elevados de andrógenos no sangue
  3. Ovários policísticos ao ultrassom — presença de 12 ou mais folículos com 2-9 mm de diâmetro, ou volume ovariano acima de 10 mL

A síndrome tem fisiopatologia multifatorial, envolvendo resistência à insulina, elevação do LH (hormônio luteinizante), redução da globulina ligadora de hormônios sexuais (SHBG) e aumento da produção androgênica ovariana e adrenal[3].


Causas e Fatores de Risco

Por que a SOP causa queda de cabelo?

O mecanismo central envolve o excesso de andrógenos — especialmente testosterona livre e di-hidrotestosterona (DHT). Em mulheres com SOP:

  • A queda da SHBG (proteína que "neutraliza" a testosterona) aumenta a fração livre e biologicamente ativa do hormônio
  • A conversão de testosterona em DHT pela enzima 5-alfa-redutase nos folículos pilosos leva à miniaturização progressiva dos fios
  • A DHT encurta a fase anágena (crescimento) e prolonga a fase telógena (repouso), resultando em fios mais finos e queda acentuada

Curiosamente, a alopecia pode ocorrer mesmo quando os andrógenos séricos estão dentro do intervalo normal[4]. Isso sugere que a sensibilidade dos receptores androgênicos no couro cabeludo — influenciada pela genética — tem papel determinante na expressão clínica.

Fatores que aumentam o risco

  • História familiar de calvície androgenética (pai, avô ou tios calvos)
  • Resistência à insulina e obesidade — amplificam a produção androgênica
  • Início precoce da SOP — adolescentes têm maior risco de desenvolver alopecia ao longo da vida
  • Origem étnica — algumas populações têm maior expressão da 5-alfa-redutase no couro cabeludo

Sintomas e Sinais

A queda de cabelo associada à SOP tem características distintas da alopecia androgênica clássica:

  • Distribuição difusa, com rarefação mais evidente na região central e parietal do couro cabeludo
  • Preservação da linha frontal na maioria das pacientes (diferente do padrão masculino)
  • Fios mais finos e sem brilho antes da queda evidente
  • Pode ser acompanhada de hirsutismo (pelos no queixo, lábio superior, abdômen), acne e irregularidade menstrual
  • Aumento da oleosidade no couro cabeludo, acelerando o telógeno

A queda costuma progredir lentamente, mas pode se intensificar em períodos de estresse, ganho de peso ou uso de anticoncepcionais com perfil androgênico.


Diagnóstico

O diagnóstico da queda de cabelo associada à SOP requer avaliação conjunta dermatológica e endocrinológica.

Avaliação clínica

  • Anamnese detalhada: regularidade do ciclo, histórico hormonal, uso de medicamentos, história familiar
  • Dermoscopia do couro cabeludo: avalia a miniaturização folicular, presença de fios velus e razão fio terminal:velus
  • Escala de Ludwig: classifica a alopecia feminina em três graus (I a III), sendo a escala padrão para FPHL (female pattern hair loss)

Exames laboratoriais

Exame Relevância
Testosterona total e livre Identificar hiperandrogenismo
DHEA-S (sulfato de dehidroepiandrosterona) Avaliar componente adrenal
SHBG Estimar andrógenos biodisponíveis
LH e FSH Razão LH:FSH elevada é sugestiva de SOP
Insulina de jejum e HOMA-IR Avaliar resistência à insulina
TSH e T4 livre Excluir hipotireoidismo como causa concomitante
Hemograma e ferritina Descartar anemia ferropriva

O ultrassom transvaginal completa a investigação, confirmando ou descartando morfologia policística dos ovários.


Classificação e Estágios

A alopecia associada à SOP é classificada pela Escala de Ludwig:

Grau Descrição
Ludwig I Rarefação discreta na região central, preservando linha frontal
Ludwig II Rarefação moderada, claramente visível ao exame
Ludwig III Rarefação intensa com transparência do couro cabeludo

Alguns serviços utilizam também a Escala SALT (Severity of Alopecia Tool) para quantificar a área afetada em percentual, o que auxilia no acompanhamento da resposta ao tratamento.


Tratamentos Disponíveis

O tratamento da queda de cabelo na SOP é necessariamente multidisciplinar, envolvendo dermatologista ou tricologista e endocrinologista ou ginecologista. A abordagem combina o controle do hiperandrogenismo sistêmico com medidas tópicas e procedimentos locais.

1. Espironolactona (antiandrogênio oral)

Principal medicamento antiandrogênico para queda de cabelo feminina no Brasil. Bloqueia os receptores de andrógenos nos folículos pilosos e reduz a conversão periférica de testosterona.

Uma metanálise de 2023 com 192 pacientes mostrou melhora capilar em 56,6% das mulheres[5]:

  • Em monoterapia: 43,2% de melhora
  • Combinada com minoxidil: até 65,8% de melhora

Doses habituais: 50-200 mg/dia. Requer acompanhamento médico, especialmente para monitorar potássio sérico e pressão arterial. Contraindicada na gravidez. Saiba mais em espironolactona para queda de cabelo.

2. Minoxidil tópico ou oral

Vasodilatador que prolonga a fase anágena e estimula a proliferação de células da papila dérmica. Atua independentemente do mecanismo hormonal, sendo eficaz mesmo em pacientes com andrógenos normais.

Geralmente utilizado como terapia adjuvante à espironolactona. Veja detalhes em minoxidil para queda de cabelo.

3. Anticoncepcionais com perfil antiandrogênico

Pílulas combinadas que contêm progestinas com atividade antiandrogênica (acetato de ciproterona, drospirenona, dienogest) reduzem os andrógenos livres ao:

  • Aumentar a SHBG
  • Suprimir a produção ovariana de testosterona

São frequentemente a primeira linha para pacientes que também necessitam de contracepção ou regularização do ciclo. Atenção: pílulas com progestinas androgênicas (levonorgestrel, noretisterona) podem piorar a queda.

4. Metformina

Para pacientes com resistência à insulina significativa, a metformina pode reduzir os andrógenos de forma indireta ao melhorar a sensibilidade à insulina. Não trata diretamente a alopecia, mas pode contribuir para o controle hormonal global.

5. Procedimentos locais

  • PRP (Plasma Rico em Plaquetas): estimula a proliferação de células foliculares e melhora o microambiente do couro cabeludo. Confira mais em PRP capilar
  • Microagulhamento: aumenta a expressão de fatores de crescimento e melhora a absorção do minoxidil tópico
  • Laserterapia de baixa intensidade (LLLT): aprovada pelo FDA para FPHL, com evidências de melhora da densidade capilar

Prevenção

Não é possível prevenir a SOP, mas é possível reduzir o impacto da síndrome na saúde capilar:

  • Controle do peso corporal: a perda de 5-10% do peso em mulheres com SOP e sobrepeso pode reduzir significativamente os andrógenos livres e melhorar os ciclos menstruais
  • Dieta de baixo índice glicêmico: diminui a hiperinsulinemia, que amplifica a produção androgênica
  • Atividade física regular: melhora a sensibilidade à insulina e reduz a inflamação crônica associada à SOP
  • Diagnóstico precoce: tratar a SOP antes que a alopecia progrida para estágios avançados preserva mais folículos funcionais
  • Escolha criteriosa do anticoncepcional: evitar progestinas com perfil androgênico

Quando Procurar um Médico

Procure avaliação médica se você identificar:

  • Queda de cabelo difusa ou rarefação na coroa/região central
  • Irregularidade menstrual associada à queda
  • Acne persistente no queixo ou mandíbula
  • Pelos em locais incomuns (barba, abdômen, mamilos)
  • História familiar de SOP ou calvície androgenética feminina
  • Queda que não responde a tratamentos tópicos convencionais após 6 meses

O encaminhamento precoce ao dermatologista e ao ginecologista/endocrinologista é fundamental — quanto mais cedo iniciado o tratamento, melhores os resultados.


Perguntas Frequentes

A queda de cabelo causada pela SOP tem cura? Não existe cura definitiva, mas o controle é possível. Com tratamento adequado — antiandrogênicos, minoxidil e abordagem hormonal — a maioria das pacientes estabiliza a queda e recupera parte da densidade capilar perdida. O tratamento precisa ser mantido a longo prazo.

Posso tratar a queda de cabelo da SOP sem medicação hormonal? Sim, parcialmente. O minoxidil tópico age independentemente dos hormônios e pode melhorar a densidade capilar. Procedimentos como PRP e microagulhamento também ajudam. No entanto, sem controlar o excesso androgênico, a progressão tende a continuar.

Quanto tempo leva para ver resultados com o tratamento? Os primeiros sinais de melhora com espironolactona e minoxidil costumam aparecer entre 4 e 6 meses de uso contínuo. Resultados mais significativos são esperados com 12 meses de tratamento.

A gravidez pode afetar a queda de cabelo na SOP? Durante a gravidez, muitas mulheres com SOP notam melhora temporária da queda, pois os estrogênios elevados prolongam a fase anágena. No entanto, o eflúvio pós-parto pode ser mais intenso. A espironolactona é contraindicada na gravidez.

É possível usar anticoncepcionais e minoxidil ao mesmo tempo? Sim, desde que o anticoncepcional tenha perfil antiandrogênico. A combinação de anticoncepcional antiandrogênico + minoxidil ± espironolactona é uma das estratégias mais utilizadas e com maiores taxas de resposta[5].


Referências

  1. Lizneva D, et al. Criteria, prevalence, and phenotypes of polycystic ovary syndrome. Fertil Steril. 2016;106(1):6–15. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/27233760/

  2. Cela E, et al. Prevalence of polycystic ovaries in women with androgenic alopecia. Eur J Endocrinol. 2003;149(5):439–42. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/14585091/

  3. Rotterdam ESHRE/ASRM-Sponsored PCOS Consensus Workshop Group. Revised 2003 consensus on diagnostic criteria and long-term health risks related to polycystic ovary syndrome. Fertil Steril. 2004;81(1):19–25. doi:10.1016/j.fertnstert.2003.10.004

  4. Carmina E, et al. Female Pattern Hair Loss and Androgen Excess: A Report From the Multidisciplinary Androgen Excess and PCOS Committee. J Clin Endocrinol Metab. 2019;104(7):2875–91. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/30785992/

  5. Rathnayake D, et al. The Efficacy and Safety of Oral Spironolactone in the Treatment of Female Pattern Hair Loss: A Systematic Review and Meta-Analysis. Dermatol Ther (Heidelb). 2023;13(10):2249–62. https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC10502763/

  6. Piraccini BM, et al. A practical approach to the management of hair loss in patients with polycystic ovary syndrome. J Eur Acad Dermatol Venereol. 2023;37(4):673–83. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/36606524/

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Aviso medico: Este conteudo e informativo e nao substitui consulta com dermatologista ou medico especialista. Sempre procure orientacao profissional antes de iniciar qualquer tratamento.